Capítulo 5 – Três Noites de Cativeiro
por FanfiqueiraSN entrou em casa exausta. O cheiro de sangue ainda impregnava o ar, misturado ao de sujeira e poeira que se levantava com cada passo. Tudo estava revirado — móveis quebrados, louça estilhaçada, roupas espalhadas como se fossem lixo. O estômago dela revirava diante da cena, mas não havia escolha.
Ela se agachou, recolhendo pedaços de vidro com as mãos trêmulas, jogando fora o que não tinha mais conserto. O que ainda poderia ser reparado, guardava num canto, esperando o dia em que teria forças e dinheiro para arrumar. As lágrimas escorriam silenciosas, caindo sobre o chão que ela esfregava com raiva, como se pudesse arrancar dali toda a miséria que a perseguia.
Chorava de cansaço, de desespero, de não ter um único lugar que pudesse chamar de refúgio. Cada canto daquela casa era uma lembrança de dívida, violência, dor. O corpo dela doía, mas ainda assim continuava limpando. Quando terminou, a madrugada já anunciava a chegada do sol.
Caminhou até o banheiro, o corpo pedindo água quente para aliviar o peso que carregava. Assim que o vapor subiu, puxou a camisa pela cabeça e se encarou no espelho. As marcas no pescoço estavam ali, roxas, evidentes, como dedos que ainda a prendiam. O coração dela disparou.
Se Jungkook visse aquilo, pensaria o óbvio: que ela tinha tido outro homem. Mas o contrato era claro — ela era só dele. Por mais irônico que fosse, mesmo depois de ser quase estrangulada, o medo maior dela era que ele acreditasse que tinha sido por prazer.
Ela entrou debaixo do chuveiro, esfregando a pele com força, como se pudesse apagar o que tinha sido deixado ali. Depois, enrolada na toalha, abriu a pequena caixa de maquiagem e começou a testar cores e camadas, tentando disfarçar a marca. Camuflou, mas não o suficiente. Ainda havia um contorno estranho na pele.
Frustrada, abriu a gaveta de acessórios e encontrou um lenço de tecido fino. Colocou no pescoço, ajeitou no espelho. Respirou fundo quando percebeu que aquilo, junto da maquiagem, seria suficiente. Deixou o lenço separado e finalmente se jogou na cama. Adormeceu sem perceber quando, vencida pelo cansaço.
Do outro lado da cidade, Jungkook deixava o hospital após longas horas. A cirurgia tinha terminado com sucesso, mas não havia descanso imediato. Pacientes, relatórios, um turbilhão de problemas que só acalmou quando, enfim, entrou em casa e trancou a porta atrás de si.
Jogou o paletó sobre a poltrona e afrouxou a gravata, mas a mente não desacelerava. Em algum lugar dentro dele, uma imagem queimava sem parar: Branca de Neve, quente e encaixada nele, gemendo no seu colo como se fosse feita para aquilo.
A memória o fez fechar os olhos, a respiração pesar. Ele lembrava da forma como ela rebolava contra ele, como tentava arrancar dele algo que não estava disposto a dar. O beijo que ela tentou — doce, carinhoso — e que ele quebrou sem piedade. Não queria ternura, não queria romance.
A mão dele se fechou em punho contra a coxa. Imaginava o que faria com ela na próxima vez: debruçá-la contra a parede, arrancar dela os sons mais obscenos sem permitir nem um segundo de ilusão de carinho. Queria dominá-la até que ela esquecesse qualquer outra forma de toque. A simples ideia fazia seu sangue ferver de novo.
O celular vibrou. Um alerta do hospital.
Ele abriu.
Paciente: Kang
Status: internado.
Observação: família sem condições de pagamento imediato.
A filha informou que levará o valor antes da alta.
Jungkook ficou olhando para a tela por alguns segundos. O nome do homem já era conhecido. Não era a primeira vez que aparecia quebrado, destruído, resultado de dívidas e brigas sujas. E sempre era a filha quem vinha buscá-lo, exausta, carregando o peso que não era dela.
— Coloquem o caso como pro bono — ordenou, digitando a resposta seca. — Mas não informem nada à família.
Guardou o telefone na mesa de cabeceira, deitando-se enfim. Havia algo naquela garota que chamava atenção dele. A postura, a força em suportar tanto, o jeito quase ingênuo de carregar responsabilidades que deveriam esmagar qualquer outra mulher.
Ele suspirou, encarando o teto. Branca de Neve era uma fuga, um vício sujo que queimava como álcool na garganta. A outra… a outra parecia feita de algo raro. Uma mulher para ter em casa, para respeitar.
Ele fechou os olhos, permitindo que os pensamentos se enroscassem, tão perigosos quanto tentadores. A ironia era que, sem saber, comparava duas metades da mesma mulher.
E adormeceu assim — dividido entre o desejo cru e a curiosidade silenciosa.
Mais tarde na quele dia…
O táxi seguia pelas ruas iluminadas pelos postes, cada farol refletindo nos vidros como pequenas lâminas de luz. SN mantinha os olhos fixos no celular, o coração acelerado enquanto a tela acendeu. Uma nova mensagem.
Código de acesso: 8147.
— Não atrase.
Ela respirou fundo. Puxou a máscara da bolsa e a ajustou no rosto, cobrindo a identidade que precisava esconder de todos. A cada batida do coração, lembrava que não poderia deixar escapar nada — nem do corpo, nem da vida.
Quando o carro parou diante do prédio, o porteiro olhou de relance, como quem já sabia exatamente o que estava acontecendo. Ela desceu, já usando a mascara, o lenço no pescoço escondendo o que não deveria estar visível. Passos firmes até a recepção.
— Boa noite. — disse ela, a voz baixa, quase automática.
— Boa noite. — o homem respondeu, olhando rapidamente para o celular dela quando SN digitou o código que Jungkook tinha enviado. O visor brilhou, confirmando a liberação.
O porteiro não disfarçou a pequena risada de canto de boca. — Mais uma… — murmurou, baixo, mas alto o suficiente para que ela ouvisse.
SN engoliu em seco, o estômago revirando. O sangue subiu-lhe ao rosto sob a máscara, uma mistura de vergonha e raiva. Mas o que poderia fazer? Fingiu não ter ouvido, apenas endireitou os ombros e entrou no elevador, deixando o homem rindo sozinho no hall.
O elevador subiu em silêncio, cada número acendendo como se fosse um passo em direção a algo inevitável. Quando chegou ao andar indicado, ela caminhou até a porta. O coração batia contra as costelas, a respiração presa atrás da máscara.
Ergueu a mão hesitante.
Bateu.
O som seco ecoou pelo corredor vazio.
A porta se abriu lentamente, revelando Jungkook apoiado no batente, cigarro preso entre os lábios. Uma espiral de fumaça escapou no mesmo instante, preenchendo o ar estreito do corredor.
SN tossiu forte, a garganta arranhada pela primeira tragada involuntária. Tentou disfarçar, mas a tosse sacudiu seu peito.
Ele arqueou uma sobrancelha, quase divertido.
— Fraca pra isso? — a voz dele saiu rouca, envolta pelo próprio vício. Deu uma tragada profunda, soltando a fumaça perto dela de propósito, como se quisesse medir a reação.
SN desviou o rosto, respirando com dificuldade, e entrou.
Os olhos varreram o apartamento em silêncio. Não era grande, o espaço era o suficiente para não parecer sufocante, mas distante de aconchegante. Tinha apenas o necessário — sofá, mesa, alguns móveis funcionais. Nada que desse a sensação de lar. Era um lugar feito para encontros, não para viver. O ar tinha cheiro de cigarro, couro e algo que não pertencia a ninguém, apenas a ele.
Ela ainda observava os detalhes quando a voz dele cortou o ambiente.
— Vamos passar três dias aqui. — disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Eu sei que não te avisei sobre trazer roupas. — uma risada sarcástica escapou de seus lábios. — Mas não vamos precisar delas mesmo.
O coração de SN disparou. Um frio percorreu sua espinha.
Três dias?
O pensamento veio acompanhado da imagem imediata do pai. O corpo ensanguentado na sala. O hospital. A promessa de pagar hoje mesmo. A dívida que ainda pairava sobre eles como uma corda no pescoço.
Meu pai está internado… eu preciso pagar… depois dessa noite, eu prometi que pagaria… o que eu faço agora?
A garganta dela se fechou. O desespero começou a subir como maré alta, mas por fora manteve a postura. Reta. Máscara firme.
— Eu não posso. — disse, a voz controlada, quase fria. — Preciso voltar para casa.
Ele fechou a porta com calma, trancando.
— Por quê? — perguntou, olhando-a nos olhos.
SN desviou.
— Só… preciso.
Ele soltou uma risada baixa, carregada de cinismo. Caminhou até a mesa de centro, pegou uma pasta preta e puxou um papel dobrado. Jogou-o no sofá, bem ao lado dela.
— Leia de novo. — ordenou.
SN hesitou. O contrato. Suas mãos tremeram discretamente ao abrir. Os olhos varreram as linhas até parar no trecho que antes havia ignorado: “Acompanhamento contínuo de três noites consecutivas, sem exceções.”
O ar lhe faltou por um segundo. Eu assinei isso…?
Quando ergueu os olhos, Jungkook a encarava como um predador paciente.
— Você trouxe os exames? — a voz dele soou baixa, mas carregada de expectativa.
SN soltou um suspiro impaciente, quase um bufar discreto, e enfiou a mão na bolsa. Retirou um envelope dobrado, entregando para ele sem dizer nada.
Ele pegou o envelope com calma, apagou o cigarro num cinzeiro próximo e abriu os papéis. A leitura foi minuciosa, fria, quase clínica. O silêncio no apartamento pesava. Cada página virada parecia ecoar.
Os olhos dele percorreram as linhas dos resultados, um músculo em sua mandíbula se contraindo. Depois dobrou os papéis novamente, guardando-os no envelope.
Sem pressa, colocou-o sobre a mesa.
— Bom. — disse apenas, a voz baixa, arrastada. — Agora não há nada que impeça o que eu quiser de você nesses três dias.
Ele se inclinou um pouco, os olhos fixos nela por trás da fumaça que ainda pairava no ar.
— Nenhuma desculpa. Nenhuma fuga. Só eu.
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