Capítulo 3 – Território Proibido
por FanfiqueiraO corredor estreito parecia sufocante. As luzes avermelhadas piscavam em intervalos quase imperceptíveis, como se fossem cúmplices silenciosas de todos os segredos que já tinham presenciado ali. SN atravessou-o com passos firmes, embora o corpo ainda doído denunciasse o que tinha acabado de acontecer.
Assim que entrou no camarim privado, trancou a porta com pressa e encostou as costas contra ela. O cheiro do quarto ainda estava nela, impregnado na pele, e isso a incomodava mais do que qualquer marca de boca ou de mão. Respirou fundo. Precisava do banho. Sempre precisava. Era a forma de se livrar daquela vida antes de voltar para o lado de fora, onde fingia ser apenas uma mulher comum.
Jogou as roupas usadas numa cadeira, ligou o chuveiro no máximo e entrou sem esperar a água aquecer. Deixou que as gotas frias corressem pelo rosto, pelo pescoço, pelo corpo. Fechou os olhos, mas a lembrança do toque dele não desapareceu.
O corpo lembrava.
As mãos grandes apertando sua cintura.
O ritmo implacável.
O som de sua voz proibindo qualquer gesto de carinho.
Mordeu o lábio inferior, sentindo uma onda de desejo que não deveria existir. Era a primeira vez que queria de novo. Que desejava de novo. E isso a deixou furiosa consigo mesma. Enfiou os dedos nos cabelos molhados, tentando apagar a sensação, tentando se convencer de que era apenas mais um cliente. Apenas mais um.
Saiu do banho e se enrolou na toalha, limpando a água com pressa, como se pudesse secar junto aquelas lembranças. Vestiu-se devagar, escolheu roupas sóbrias, decentes — como sempre fazia antes de ir embora. A cada peça ajustada ao corpo, reforçava a divisão entre o que era ali dentro e o que era lá fora.
Pegou o celular e, sem hesitar, cancelou todos os compromissos da semana. Um por um. Sete clientes, sete mensagens secas. Inclusive o de hoje à noite. Não esperou resposta. Guardou o aparelho na bolsa, respirou fundo e começou a se recompor.
Quando o telefone vibrou de novo, já estava passando batom diante do espelho. Abriu a mensagem:
“Achei curioso você desmarcar comigo assim. Eu estava esperando muito por essa noite…”
Era Namjoon, o próximo da lista. O texto não tinha reclamações diretas, mas o tom decepcionado era claro. Logo depois, outra mensagem chegou:
“Quinta-feira, então.”
SN suspirou. Quinta-feira… ainda estaria presa àquele contrato.
Digitou de volta, rápido:
“Sexta. Atendimento exclusivo. Mais tarde do que o normal.”
Esperou apenas alguns segundos. A resposta veio imediata, quase ansiosa, como se ele tivesse se sentido privilegiado:
“Exclusivo? Está bem. Sexta, mais tarde.”
SN soltou um riso baixo, sem humor. Homens eram fáceis de manipular quando achavam que estavam recebendo algo especial.
Arrumou a bolsa, apagou a luz e saiu pelo corredor que dava para a área do hotel. As paredes agora eram neutras, tapetes caros, iluminação dourada. A fachada perfeita para enganar quem não sabia o que acontecia atrás das portas. Descendo as escadas em direção ao saguão, SN ajustava a barra da roupa com cuidado.
Foi quando ouviu vozes.
Congelou no meio do corredor. A primeira voz era inconfundível: Namjoon. A segunda, grave, profunda, soava como um soco no estômago: Jungkook.
SN desviou o olhar discretamente. Eles conversavam próximos à recepção, riam baixo, cúmplices de uma intimidade que ela não sabia existir. O estômago dela revirou. O que aqueles dois faziam juntos?
Esperou alguns segundos, o coração batendo acelerado. Quando os dois finalmente se moveram em direção à saída, SN contou até dez antes de seguir também.
Mas, no saguão, cruzou com um casal comum que tentava se hospedar. O homem, de mãos dadas com a mulher, falava animado sobre tarifas, enquanto o recepcionista mantinha um sorriso educado e repetia:
— Infelizmente, estamos lotados.
SN desviou os olhos. Sabia bem como aquilo funcionava. A fachada de hotel servia para os inocentes, mas apenas os indicados tinham acesso ao verdadeiro negócio. E os inocentes… sempre eram rejeitados.
Ela atravessou o saguão com passos firmes, mas o coração estava disparado. Lá fora, a noite parecia mais fria. Parou na calçada, olhou para os lados, procurando um táxi.
Foi nesse instante que Jungkook estava dentro de um carro preto, no banco do motorista. Namgyun no passageiro. Ele a viu pelo retrovisor, tão arrumada, tão diferente das outras que saíam dali. Roupas decentes. Nenhum traço de vulgaridade. Um contraste que destoava de tudo o que ele acreditava sobre aquelas mulheres.
O que essa vadia está tentando esconder?
O pensamento atravessou a mente dele como uma lâmina. Nenhuma delas saía assim. Nenhuma.
Namgyun percebeu o olhar fixo e arqueou a sobrancelha.
— Está vendo o quê? — perguntou, curioso.
Jungkook não desviou os olhos, acompanhando a silhueta de SN entrando no táxi.
— Aquela garota… — murmurou, baixo.
Namgyun soltou uma risada curta.
— Pode ser alguém que entrou por engano. Acontece muito. O pessoal acha que é hotel de verdade.
Jungkook não respondeu de imediato. O maxilar travado denunciava que acreditava em qualquer coisa, menos em engano. O carro arrancou devagar, levando os dois embora. Mas o olhar dele permaneceu preso ao reflexo daquela mulher entrando no táxi.
O carro deslizava silencioso pelas ruas molhadas, os faróis refletindo no asfalto escuro, criando faixas douradas que se misturavam ao brilho da chuva. Jungkook dirigia com calma quase clínica, os dedos firmes no volante, o olhar fixo na estrada como se pudesse cortar a noite à sua frente. Namjoon, no banco do passageiro, o observava com uma mistura de curiosidade e incredulidade, cada gesto do amigo transmitindo poder e frieza em doses iguais.
— Quem te indicou? — Quebrou o silêncio, a voz baixa, mas carregada de surpresa. — Só entra gente por indicação nesse lugar.
Jungkook deu um sorriso frio, quase imperceptível, sem tirar os olhos da estrada.
— Yoongi.
Namjoon arqueou as sobrancelhas, surpreso, balançando a cabeça.
— O Yoongi? Não imaginava… não sabia que ele frequentava esse tipo de lugar… e aquela garota que ele estava namorando?
Jungkook respirou fundo, a voz grave, carregada de desprezo velado.
— Terminaram. Ela não suportava quando ele sumia. Vivida surtando por qualquer ausência. Então ele mandou ralar.
Namjoon ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo a informação, até que Jungkook continuou, agora como se estivesse se libertando de um peso ao contar, falando dos detalhes daquele que havia sido, para ele, um encontro intenso, exclusivo e selvagem.
— Hoje… — começou, voz baixa, firme, mas sem cerimônia — hoje eu peguei a… Branca de Neve.
Namjoon arqueou os olhos, rígido, quase perdendo a respiração.
— Espera… Branca de Neve? — disse, incrédulo. — Eu ia pegar ela hoje… foi ela, a puta que disse que desmarcou comigo. Você… comeu ela hoje?
Jungkook apenas assentiu, firme, sem hesitar. Mas um pequeno sorriso surgiu, convencido, vitorioso.
— Sim. Hoje. — respondeu, com a voz baixa, cada palavra cheia de possessividade.
Namjoon recostou-se no banco, as mãos batendo levemente contra o braço do carro.
— Vadia… — murmurou, incrédulo. — Ela me disse que não podia me atender… o que você fez com ela pra ela não conseguir me atender? Eu nem pego pesado com ela.
Jungkook apertou os dedos no volante, deixando a frieza pulsar em cada gesto. Um sorriso sombrio se formou nos lábios.
— Fiz um contrato. — A voz era baixa, ameaçadora. — Por uma semana, ela é só minha. Nenhum de vocês terá acesso.
Namjoon ficou surpreso, a incredulidade misturando-se à raiva contida.
— Um contrato? — repetiu, quase se refazendo da surpresa. — Por que não pensei nisso antes?
— Porque ninguém nunca fez questão de marcar a exclusividade. — Jungkook disse, firme, e o tom deixava claro que aquilo não era debate. — O Yoongi já pegou ela umas três vezes. Ele só vai lá para comer ela, queria garantir que fosse só minha, mesmo que só por uma semana, não gosto de dividir meus brinquedos. — ele disse num meio sorriso com um tom sarcástico.
Namjoon respirou fundo, fascinado e incomodado ao mesmo tempo.
— Ela é… incrível, né? — disse, quase em um sussurro, incapaz de conter o fascínio.
Jungkook apertou os lábios, mantendo o olhar fixo na estrada, como se nada do que Namjoon dissesse tivesse importância. Mas a possessividade pulsava em cada músculo.
Ele soltou um suspiro baixo, mantendo o controle absoluto, os olhos ainda fixos na estrada.
— Ela é só minha por uma semana agora. — repetiu, ameaçador, deixando claro que não era apenas desejo, mas um território demarcado, rígido, que nenhum outro homem poderia ultrapassar. — Cada pedaço daquele corpo, agora é só meu.
Namjoon permaneceu em silêncio, assimilando o relato, a incredulidade misturada a uma fascinação desconfortável. E Jungkook continuava dirigindo, implacável, dono do carro, da noite e de quem quer que ousasse tocar aquela mulher.
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