Capítulo 8 – Contrato de Sangue
por FanfiqueiraEle ficou imóvel no banco do carro, a voz da enfermeira ainda ecoando nos ouvidos.
— Senhor… sobre a filha do paciente, senhor Kang… ela ligou há pouco. Disse que só poderá ir buscar o pai amanhã, e que fará o pagamento também amanhã. Mas como o senhor mandou deixar o atendimento dele como pro bono, eu a informei.
O silêncio dele pareceu comprimir o ar dentro do veículo. Não deveria significar nada além de alívio. Mais um problema resolvido. Mas, em vez disso, uma sequência de perguntas o queimava por dentro.
“O que será que aconteceu? Por que ela sumiu tanto tempo? Sempre foi uma filha dedicada, vivia no hospital ao lado do velho, e agora desaparece como se tivesse sido engolida pela terra? Será que os credores têm a ver com isso? Será que tocaram nela?”
Quase sem perceber, murmurou:
— Sabe dizer se ela está bem?
Do outro lado, um silêncio breve, incômodo. Então a voz da enfermeira, mais baixa do que antes, meio trêmula:
— Não sei, senhor. Ela falou pouco. Mas… parecia… parecia que tinha chorado.
Um aperto atravessou o peito dele. Um impulso quase selvagem de se levantar dali e ir atrás da garota. Mas logo se conteve, a mão apertando firme o volante como se precisasse se lembrar de quem era.
“Isso não é problema meu. É só a filha de um dos meus vários pacientes. Só isso.”
Forçou a voz para soar fria:
— Certo. Me avise se houver qualquer novidade.
Desligou. O silêncio dentro do carro era pesado demais. Respirou fundo, tentando recuperar o controle. Mas o olhar foi atraído, contra a própria vontade, de volta ao prédio. À janela iluminada do apartamento.
Ela estava lá. A prostituta. A mulher que horas antes se entregara a ele. O som do choro dela, ainda ecoava em sua mente, a sombra dos olhos arregalados quando ele a segurou pelo pescoço na hora do sexo, atravessou a memória dele como uma lâmina.
“Ela é só uma prostituta. Nada além disso. Foi paga para me satisfazer. É só isso.”
A filha de Kang. A prostituta na janela. Duas imagens que se embaralhavam na cabeça dele como um jogo perverso. Qual delas deveria ir atrás? A filha dedicada que, de repente, havia desaparecido do mapa? Ou a mulher que quebrava, uma a uma, as barreiras que ele construíra — e que agora estava trancada a poucos metros dali, chorando como se o mundo tivesse desabado?
Respirou fundo, fechou os olhos por um instante. Sentiu a respiração acelerar, o sangue correr mais quente.
Quando abriu os olhos, a decisão já estava tomada.
Desligou o carro e saiu. Cada passo até a entrada do prédio parecia ecoar contra o silêncio da rua. No corredor, tudo estava parado, morto. A chave rodou firme na fechadura, o clique metálico soando mais alto do que deveria. Empurrou a porta e entrou.
Ela estava ali, de costas, parada diante da janela. O vidro refletia a cidade e as luzes da noite, mas não ofuscava o contorno dela — os ombros tensos, a respiração ainda trêmula. Não o viu chegar. Só quando a porta bateu atrás dele é que se virou, abrupta, o susto escorrendo dos olhos.
E então ele viu.
As marcas.
Um tom arroxeado começava a escapar pela pele clara do pescoço dela, mal coberto por uma camada apressada de base. Mas aos olhos dele, nada passava despercebido.
O ar lhe escapou dos pulmões.
— Droga… — murmurou baixo, quase sem perceber.
Deu dois passos largos em direção a ela. O instinto mais bruto mandava agarrá-la, puxá-la, mas não foi isso que fez. A mão dele, tão acostumada a ser firme, a apertar, pousou com uma delicadeza quase desconcertante no pescoço dela. Os dedos deslizaram, traçando a pele sensível como se buscassem confirmar se o que viam era real.
Ela arregalou os olhos, o corpo inteiro recuando como um animal acuado. A voz não saiu, mas o pensamento foi tão claro que quase ecoou no ambiente: Droga. Ele sabe.
O peito dele pesava, a mente se embaralhava.
Que merda eu fiz com ela? A memória se misturava: o calor do corpo, o choro abafado, o olhar que implorava algo que ele não quis ouvir. Eu nem segurei com tanta força. Segurei? Foi por isso que ela não parava de chorar?
Ele a fitava, a mão ainda pousada sobre a marca, sem saber se queria acariciar ou apagar o que ele mesmo havia deixado ali. O desejo ainda queimava nele, mas o gosto vinha misturado com culpa.
Ela recuou mais um passo, os lábios entreabertos, a respiração curta. O silêncio era sufocante. Ele não tirava os olhos dela — e no fundo, sentia como se estivesse diante de um abismo: parte dele queria pedir perdão, mas ele ficou apenas ali olhando pra ela.
Ele ficou parado, a mão suspensa no ar quando ela recuou, os olhos grudados naquele gesto desesperado dela cobrindo o próprio pescoço. Depois de alguns segundos, abaixou a mão, pesado, quase como se tivesse perdido o controle de si por um instante.
— Eu… eu posso explicar… — a voz dela saiu trêmula, carregada de medo.
A confusão tomou conta dele, um redemoinho no peito. Explicar? O que ela tem que explicar?
— Explicar? — repetiu, a voz baixa, fria, mas carregada de tensão prestes a explodir. — O que você tem que explicar?
— Eu escondi isso aqui… porque… — ela gaguejava, tentando montar uma frase que fizesse sentido.
O sangue dele ferveu. Os músculos tensionaram.
— O quê? — avançou meio passo, o tom já mais alto. — Não fui eu que fiz isso?
O olhar dela se arregalou, um sussurro escapou quase sem som:
— Droga…
A fúria o engoliu por inteiro. A respiração acelerou, o peito subia e descia rápido.
— Isso tá no seu pescoço desde antes de você dormir comigo naquele puteiro, não tá?! — a voz dele agora era um rugido.
Ela recuou, tropeçando de leve, a voz falhando:
— N… não…
Num impulso cego, ele virou e arremessou a mesinha lateral no chão, o som estrondoso se espalhando pelo apartamento. O punho cerrado foi direto contra a parede, um soco seco que reverberou pelo espaço. A dor no braço mal foi notada diante da raiva.
A lembrança queimou dentro dele: a ex na cama com o melhor amigo. O gosto amargo da traição. O riso que ecoava na memória como uma lâmina atravessando seu peito. Tudo aquilo voltou à tona como uma ferida aberta — e SN era o alvo errado, mas o único disponível.
Assustada, ela caiu no chão, de costas contra a parede, o corpo encolhido, os olhos marejados e aterrorizados. Ele a encarava como um predador sem controle.
Pegou o celular, a voz carregada de veneno.
— Acabou. — Digitou rápido, transferindo o dinheiro pelos dois dias. — Tá paga. Cada segundo que você ficou aqui.
Foi até o quarto, pegou a bolsa dela e voltou, jogando-a com força no chão, perto dela.
— Some daqui! — gritou, a voz quebrada pelo ódio. — Vai embora! E nunca mais aparece na minha frente! Nunca mais!
— Deixa eu… — ela tentou, entre lágrimas, o corpo tremendo, as mãos suplicantes.
Mas antes que conseguisse terminar, ele agarrou o copo de uísque sobre a mesa e o atirou contra a parede ao lado dela. O vidro explodiu em estilhaços, alguns atingindo sua pele. Um risco fino de sangue apareceu no braço dela, mas ele não notou. Estava cego, possuído por uma raiva que não era só dela, mas de tudo que ele carregava.
O choro dela encheu o silêncio que se seguiu. O coração martelava em desespero. Tremendo, SN se levantou e correu até a porta. Abriu-a com pressa e saiu, sem olhar para trás.
A porta bateu, e o silêncio voltou a dominar o apartamento. Mas o peito dele não desacelerava. O gosto metálico da própria raiva queimava a garganta.
Ele ficou parado no meio da sala, os estilhaços do copo ainda brilhando no chão como pequenos cacos de veneno espalhados. O peito subia e descia rápido, a respiração carregada de raiva.
— Nem em puta mais se pode confiar… — rosnou para si mesmo, a voz baixa, mas fervendo. — Fiz o contrato justamente pra garantir que não teria outro homem… mas… o que eu tava esperando? Ela é uma puta, não é?
As palavras ecoaram como um chicote, mais para tentar se convencer do que pela certeza. Ainda assim, repetiu em pensamento, alimentando o ódio que precisava sentir para não ceder à culpa.
Pegou o celular, os dedos duros demais sobre a tela. Ligou direto para o hospital.
— Preparem um exame completo. Quero na minha sala ainda hoje. — A voz saiu seca, impessoal, como se fosse apenas mais uma ordem. — Estarei aí em breve.
Do outro lado, o enfermeiro apenas confirmou.
Ele desligou sem agradecer. Jogou o aparelho sobre o sofá e atravessou o corredor até o quarto. Cada passo parecia um golpe contra si mesmo.
Puxou o uniforme do armário, jogou sobre a cama, e em seguida abriu a maleta. Pegou alguns papeis importantes com movimentos bruscos, quase mecânicos, como se a precisão de cada gesto que fazia, fosse suficiente para calar a tempestade dentro dele. Mas não era.
O rosto dela continuava voltando. O olhar arregalado. As lágrimas. As mãos trêmulas cobrindo o pescoço.
— Merda… — murmurou, apertando os punhos, fechou a maleta com força e respirou fundo.
Precisava ocupar a mente. Precisava estar em qualquer outro lugar que não aquele apartamento que cheirava a ela, que guardava o eco dos gemidos e do choro dela.
O hospital era a única saída.
Saiu do quarto com a maleta em mãos, o uniforme pendurado sobre o braço, a postura rígida de quem queria parecer frio — mas por dentro ainda queimava, perdido entre a raiva e algo que se recusava a admitir.
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